Não se Meta em minha vida

A primeira vez que eu tive contato com a ideia de que “cada $ que você gasta em algo é um ‘voto’ que você dá para esta coisa” foi no livro Rework, do Jason Fried.

A ideia é mais ou menos essa: se você quer que um negócio local prospere, a melhor coisa que você pode fazer é consumir os produtos desse negócio repetidas vezes. O mesmo vale para plataformas e serviços que usamos na internet. Em tempos de economia da atenção, cada segundo que passamos em uma dada plataforma é um ‘voto’ que damos para esta plataforma e um incentivo para que ela continue existindo.

Nesse sentido, se você acha que uma plataforma não é bacana, a melhor coisa que você pode fazer é parar de usar aquela plataforma.

Desde o que aconteceu nas eleições norte-americanas de 2016 e ficou escancarado no caso da Cambridge Analytica, várias luzes vermelhas acenderam e eu passei a ter um crescente nojo/ódio do Facebook e de suas plataformas por proporcionarem isso, negarem os impactos e repetidas vezes se colocarem do lado mais babaca da história.

Sobre o assunto, recomendo algumas leituras e produções audiovisuais:

Enfim… desde então eu fui reduzindo o uso das plataformas do Facebook e tentando me retirar completamente delas. A motivação é simples: cada segundo que eu passo numa das plataformas do Facebook, é um ‘voto’ dado a elas. E eu não quero dar este voto.

Falando nisso, eu alterno entre Facebook e Meta para me referenciar à empresa e gosto sempre de reforçar que essa bobagem de metaverso foi um excelente caso de rebranding e controle de danos que deveria estar em todos os livros básicos de gestão de marcas para ensinar através de um caso real. Mas estou digressando…

Algumas pessoas argumentam ser ‘impossível’ abandonar o WhatsApp ou o Instagram (isso já foi discutido, por exemplo, no Calma Urgente [1, 2] e no Manual do Usuário). Bem, eu acredito ser plenamente possível.

Eu estou sem nada da Meta/Facebook em meu telefone pessoal desde dezembro de 2025. Troquei de telefone e optei por não instalar nada. Comprei um chip pré-pago para manter no telefone antigo apenas porque alguns grupos de trabalho ainda funcionam no WhatsApp. Minha vida está correndo tranquilamente. O WhatsApp pra mim, hoje, é como um e-mail profissional (já que muita coisa do trabalho acontece apenas por lá).

Nesse sentido, eu digo que sim, é plenamente possível viver sem. Afinal de contas, meu trabalho não é a minha vida.

O telefone com WhatsApp fica em uma gaveta. Configurei a conta para dar uma resposta automática a quem fizer contato por lá dando meu handle no Signal e meus e-mails. Isso para o caso de mensagens urgentes.

Fiz consultas e exames médicos no início do mês de janeiro de 2026 e marquei tudo pelo telefone. Sem WhatsApp.

A vida é plenamente possível sem aplicativos da Meta.

O telefone com WhatsApp é cada vez menos usado. Por dias passa na gaveta descarregado até eu lembrar que ele existe. Quando eu o ligo há pouca coisa (quase nada) para ver no WhatsApp.

Reforçando o que o Jaron Lenier fala em “O dilema das redes”, eu acho o cúmulo do absurdo que, para trocar uma mensagem com um colega de trabalho que está a 20 metros de minha sala, a nossa conversa precise passar por um servidor da Meta em outro país e seu conteúdo ser usado para alimentar ferramentas de publicidade altamente direcionada que vão afetar os dois interlocutores da conversa no Instagram.

Pois bem. Eu tenho para mim que a Meta e seus diferentes produtos representam um câncer em nossa sociedade. Recentemente tive a ideia de – para além de não usar seus produtos – alertar outras pessoas para os perigos. Uma das coisas que quero fazer é uma camiseta para silenciosamente mostrar nas ruas a ideia. Cheguei a essa estampa:

Fique à vontade para usar o arquivo e fazer a sua camiseta também.  Pode modificar o quanto quiser. O arquivo foi feito no Krita e o tipo de letra usado é este.

Então podemos ter uma terceira parte de Delta-V? Oh!

Estava aqui pensando comigo mesmo que eu li todos os livros do Daniel Suarez. Sem sombra de dúvidas, um de meus autores favoritos!

Embora o meu preferido seja o Influx, tenho especial carinho pelo Daemon/Freedom.

Na real todos são bons. Mas estava pensando no livro mais recentemente lido: Critical Mass. Estava pensando como o livro deixa a gente numa espécie de cliffhanger porque há indícios (pelo menos eu entendi assim) de que uma personagem ainda esteja viva e em uma nova missão (que, até quase ao fim do livro, é desconhecida), no espaço. O livro acaba e eu fico com essa dúvida.

Daí hoje eu topei com esta postagem sobre o livro e uma frase me chamou a atenção: “Set after the events of Delta-v, the first novel in Suarez’s projected Delta-V trilogy“. Peraí, então foi planejada uma trilogia! Há esperanças de que um terceiro livro ainda seja escrito / lançado para falar o que possivelmente aconteceu com esta personagem? Isso é muito bom!

Enquanto isso sigo lendo a trilogia Silo (ainda no primeiro) e curtindo.

Mais um argumento em prol da necessidade de letramento digital

“Todo mundo” (generalização proveniente do senso comum) se enxerga como digitalmente alfabetizado. De igual maneira, “todo mundo” que já precisou começar e terminar um texto no Word ou fez uma autossoma no Excel se acha usuário avançado do Office. Fato é que nem todo mundo é qualquer das coisas. Nesse sentido, a argumentação do senso comum é a de que bloquear acesso às plataformas sociais até os 16 anos é “exagerado”. Na mesma lógica, é falacioso o argumento de que o que importa é o que as pessoas acessam e que o tempo de tela é menos relevante.

Novamente duas concepções equivocadas. Equivalem-se à lógica do poder do controle remoto que seria o instrumento que ajudaria as pessoas a escolherem programas de TV de alta qualidade em detrimento de programas apelativos e de baixo teor de reflexão. Isso é tão equivocado e distante da realidade que estamos entrando na 26ª temporada do Big Brother Brasil e o Luciano Huck segue reinando aos domingos. Ou seja: a argumentação de que a sociedade já está equipada para decidir o que deve consumir e o faz pensando em qualidade é completa bobagem. A restrição ou mesmo a proibição do acesso a plataformas de mídia social não deve ser encarada como punição ou censura. É cuidado.

Paralelamente a essas ações de restrição de acesso, devem existir ações educativas para que se compreenda o funcionamento dos dispositivos, das plataformas e das demais ferramentas e recursos que orbitam nesse sistema. Isso é importante para capacitar minimamente as pessoas ao uso de tecnologias digitais interativas.

Isso tem relevância porque precisamos coletivamente saber lidar com todos os recursos que usamos em nosso cotidiano. Quando éramos crianças, adultos responsáveis nos ensinaram a operar um fogão de modo que não nos machucássemos e nem que provocássemos acidentes mais graves.

Hoje não há qualquer paralelo a estes ensinamentos com relação ao digital. No entanto, o digital faz parte de nossas vidas tal qual o fogão e usamos smartphones com maior frequência do que usamos o fogão. Embora os riscos de acidentes físicos não sejam tão imediatos quanto os riscos do uso do fogão, as consequências e a extensão dos estragos podem ser muito superiores. Desde a disseminação de desinformação até o risco de prejuízo financeiro por golpes ou mesmo as questões de segurança cibernética e, claro, a saúde mental.

Entendo que causa enorme preguiça considerar isso tudo quando o que parece estar envolvido é “apenas” a ação de rolar a tela e assistir videos curtos numa plataforma qualquer. Mas é importante considerar que usar uma plataforma social é algo muito mais complexo e proporciona imediatamente muito mais consequências do que fazer pipoca no fogão.

A ausência de cuidados com a alfabetização digital é de interesse das plataformas. Afinal, qual o benefício para elas das pessoas saberem que seus serviços são usados para a coleta extensiva de dados comportamentais das pessoas?

Colocar a questão da alfabetização digital em segundo plano tem consequências graves. Para a segurança, por exemplo, há graves impactos com estragos potenciais enormes quando uma pessoa decide instalar uma VPN em seu celular para acessar um aplicativo com restrição de uso em seu país ou mesmo para consumir conteúdo específico numa plataforma de streaming. Entretanto, nada ou quase nada sobre isso é colocado em pauta.

De maneira semelhante, não se conversa sobre as formas de identificar conteúdo sintético ou de se proteger contra golpes em plataformas sociais e aplicativos de namoro. O que se faz é culpar e ridicularizar as vítimas depois que o golpe é descoberto ao mesmo tempo em que se trabalha a sedução de encontrar o grande amor da vida pela tela do celular.

Não se conversa sobre as consequências de encaminhar vídeo sintético em aplicativos de mensagens (ainda mais em contexto político-eleitoral). Não se fala sobre como fazer a leitura de um vídeo de “análise política” antes de acreditar ou mesmo repassar em massa. Ainda assim, coletivamente, as pessoas tendem a afirmar proficiência no digital. Só que “usar muito” não significa ser proficiente.

E nisso a gente vai se enganando achando que o acesso a essas plataformas deve ser irrestrito e que o que importa é “seguir as pessoas certas”. Nada mais longe do adequado.

Sobre Podcasts e Audiolivros

Podcasts são muito bacanas. Escuto vários e gosto muito de me manter informado sobre temas específicos que me interessam mas que não são, digamos, a coisa mais comum de achar por aí em noticiários. Eu gosto de ouvir as histórias do Darknet Diaries, que são sempre muito boas. Procuro ficar por dentro do que acontece nos confins da internet desde sempre acompanhando o P. J. Vogt desde a época do TLDR, passando pelo Reply All e agora no Search Engine. Outro que curto muito é o 99% invisible, que sempre tem algo bacana para ensinar e, para não falar que não escuto nada em português, o Medo e Delírio em Brasília, o Foro de Teresina, A Hora e o Boa Noite Internet também estão em minhas listas. Gosto muito também do formato de podcasts documentais. Escutar histórias e aprender por meio de relatos em áudio é muito bacana. This American Life e Land of the Giants que o digam.

Só que essas coisas vão e vem.

De vez em quando, sem bem perceber eu acabo mudando as coisas que escuto. Acho que deve ser a terceira vez em minha vida que eu dou uma pausa na audição constante de podcasts para escutar livros. Outro dia me peguei refletindo sobre isso quando uma colega professora me perguntou o que eu andava ouvindo (em termos de podcasts) e eu me dei conta, ao respondê-la, que havia algumas semanas que eu não escutava um episódio novo justamente porque havia voltado a escutar livros.

Embora exista quem não aprove ou não ache produtivo escutar livros, eu acho muito legal. Obviamente tenho em mente que o esforço cognitivo de escutar um livro é inferior ao de ler o livro no sentido estrito. Mas tudo bem. Além disso, tem a questão da distração e de estar escutando um livro enquanto faço outra coisa (em meu caso, normalmente esta outra coisa é estar dirigindo ou passeando com o cachorro aos finais de semana). De qualquer forma, da mesma maneira que a gente precisa de vez em quando voltar umas páginas quando está lendo um livro e se pega distraído e precisa ler novamente um trecho para entender melhor, quando isso acontece com um audiolivro, eu volto alguns minutos e tento entender melhor o que acabou de ser falado.

Fato é que escutar livros é muito bom.

Prefiro ouvir livros de ficção mas não me prendo a eles. Recentemente ouvi o “This is for everyone” do Tim-Berners Lee – lido pelo Stephen Fry – e também o “Technofeudalism”, lido pelo próprio autor, Yánis Varoufakis. Ambos são não-ficção. Também passei pelo “Careless people”, que me fez passar enorme raiva da Meta, da Sheryl Sandberg e do Mark Zuckerberg (se fosse possível ter mais raiva deles), escrito pela Sarah Wynn-Williams e o “Enshitification”, escrito pelo Cory Doctorow.

Antes deles passei pela belíssima trilogia de Liu Cixin: “The Three Body Problem“, “The Dark Forest” e “Death’s End” começando por aquilo que alguns consideram um prequel (mas não é) que é o “Ball Lightning“. São quatro livros fenomenais que recomendo imensamente. Ficção das boas. Talvez a leitura dos livros do Liu Cixin tenha sido uma experiência tão bacana quanto foi, anos atrás, ler os seis livros de Duna, do Frank Herbert.

Falando nisso, intercalando com as não ficções que falei acima, eu li os dois mais recentes do Daniel Suarez “Delta V” e “Critical Mass”. Este autor é fantástico. Dele eu também já havia lido “Daemon” e “Freedom”, “Kill decision”, “Influx” (o meu preferido dele) e “Change agent”. Estes todos, no entanto, li há mais tempo, acho que na segunda onda de audiolivros que eu entrei.

Ler ou ouvir?

Acima eu me peguei me referenciando a audição dos livros como leitura. Percebam que pra mim, ler e ouvir não são muito diferentes. Tanto que eu me refiro ao consumo de audiolivros como leituras. Certa vez eu ouvi o Leo Laporte falando isso (deve ter mais de 15 anos que ele falou isso em algum episódio do TWiT e a coisa ficou em minha cabeça) e eu simplesmente assimilei.

Enfim, sempre que penso nas controvérsias a respeito da qualidade (ou da falta dela) da audição de audiolivros eu me ponho a pensar em pessoas cegas. Será que as pessoas cegas – que se beneficiam enormemente de audiolivros – têm uma experiência de leitura, aprendizado e apreensão das informações inferior por causa do formato dos livros? Eu penso que não. Então, pra mim, ouvir é ler.

Pois bem. Fato é que há alguns meses eu dei uma pausa na audição de podcast e estou bem atrasado em vários deles. Alguns – presos ao tempo – como A hora, o Foro e o Medo e Delírio, eu vou acabar pulando. Outros, que são atemporais, estão aqui me esperando. Carinho especial para o Darknet Diaries.

O que rola portanto é que estou novamente em um momento de audiolivros e queria compartilhar (acho que ainda não havia falado aqui) que eu curto muito o formato e tenho muita preguiça do eventual preconceito que algumas pessoas possam ter com relação a audiolivros. Lembro que falei das minhas leituras anteriormente e não mencionei que eram leituras de audiolivros…

Se você fica muito tempo no trajeto para escola ou trabalho, sugiro experimentar. Meus deslocamentos são relativamente longos e eu percebo que a experiência muda bastante quando estou escutando um livro. Além disso, como vocês devem ter percebido, os audiolivros que mencionei estão em inglês e o processo de ouvir em inglês é excelente para manter a prática.