“Todo mundo” (generalização proveniente do senso comum) se enxerga como digitalmente alfabetizado. De igual maneira, “todo mundo” que já precisou começar e terminar um texto no Word ou fez uma autossoma no Excel se acha usuário avançado do Office. Fato é que nem todo mundo é qualquer das coisas. Nesse sentido, a argumentação do senso comum é a de que bloquear acesso às plataformas sociais até os 16 anos é “exagerado”. Na mesma lógica, é falacioso o argumento de que o que importa é o que as pessoas acessam e que o tempo de tela é menos relevante.
Novamente duas concepções equivocadas. Equivalem-se à lógica do poder do controle remoto que seria o instrumento que ajudaria as pessoas a escolherem programas de TV de alta qualidade em detrimento de programas apelativos e de baixo teor de reflexão. Isso é tão equivocado e distante da realidade que estamos entrando na 26ª temporada do Big Brother Brasil e o Luciano Huck segue reinando aos domingos. Ou seja: a argumentação de que a sociedade já está equipada para decidir o que deve consumir e o faz pensando em qualidade é completa bobagem. A restrição ou mesmo a proibição do acesso a plataformas de mídia social não deve ser encarada como punição ou censura. É cuidado.
Paralelamente a essas ações de restrição de acesso, devem existir ações educativas para que se compreenda o funcionamento dos dispositivos, das plataformas e das demais ferramentas e recursos que orbitam nesse sistema. Isso é importante para capacitar minimamente as pessoas ao uso de tecnologias digitais interativas.
Isso tem relevância porque precisamos coletivamente saber lidar com todos os recursos que usamos em nosso cotidiano. Quando éramos crianças, adultos responsáveis nos ensinaram a operar um fogão de modo que não nos machucássemos e nem que provocássemos acidentes mais graves.
Hoje não há qualquer paralelo a estes ensinamentos com relação ao digital. No entanto, o digital faz parte de nossas vidas tal qual o fogão e usamos smartphones com maior frequência do que usamos o fogão. Embora os riscos de acidentes físicos não sejam tão imediatos quanto os riscos do uso do fogão, as consequências e a extensão dos estragos podem ser muito superiores. Desde a disseminação de desinformação até o risco de prejuízo financeiro por golpes ou mesmo as questões de segurança cibernética e, claro, a saúde mental.
Entendo que causa enorme preguiça considerar isso tudo quando o que parece estar envolvido é “apenas” a ação de rolar a tela e assistir videos curtos numa plataforma qualquer. Mas é importante considerar que usar uma plataforma social é algo muito mais complexo e proporciona imediatamente muito mais consequências do que fazer pipoca no fogão.
A ausência de cuidados com a alfabetização digital é de interesse das plataformas. Afinal, qual o benefício para elas das pessoas saberem que seus serviços são usados para a coleta extensiva de dados comportamentais das pessoas?
Colocar a questão da alfabetização digital em segundo plano tem consequências graves. Para a segurança, por exemplo, há graves impactos com estragos potenciais enormes quando uma pessoa decide instalar uma VPN em seu celular para acessar um aplicativo com restrição de uso em seu país ou mesmo para consumir conteúdo específico numa plataforma de streaming. Entretanto, nada ou quase nada sobre isso é colocado em pauta.
De maneira semelhante, não se conversa sobre as formas de identificar conteúdo sintético ou de se proteger contra golpes em plataformas sociais e aplicativos de namoro. O que se faz é culpar e ridicularizar as vítimas depois que o golpe é descoberto ao mesmo tempo em que se trabalha a sedução de encontrar o grande amor da vida pela tela do celular.
Não se conversa sobre as consequências de encaminhar vídeo sintético em aplicativos de mensagens (ainda mais em contexto político-eleitoral). Não se fala sobre como fazer a leitura de um vídeo de “análise política” antes de acreditar ou mesmo repassar em massa. Ainda assim, coletivamente, as pessoas tendem a afirmar proficiência no digital. Só que “usar muito” não significa ser proficiente.
E nisso a gente vai se enganando achando que o acesso a essas plataformas deve ser irrestrito e que o que importa é “seguir as pessoas certas”. Nada mais longe do adequado.







