O segundo turno da eleição presidencial brasileira de 2026 marcou história. Foi a primeira vez que um candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar virou o jogo e venceu as eleições. A mobilização que aconteceu no país durante as três semanas que separaram os domingos 04 e 25 de outubro de 2026 foi sem precedentes. O prospecto de um presidente com sobrenome Bolsonaro e extensa lista de crimes colocou o país em alerta. As pessoas ocuparam as ruas e as plataformas sociais numa movimentação que fez o presidente Lula ser eleito com uma margem confortável de votos. Uma vitória incontestável que teve como importante componente um canal do WhatsApp chamado “Exército do Lula“.
Este canal havia sido criado pelo deputado federal André Janones em abril de 2026 e, após a apuração do primeiro turno das eleições tinha poucos milhares de participantes. Ao final da campanha do segundo turno, o canal era o segundo maior do WhatsApp no Brasil, com quase onze milhões de usuários. Foi uma sacada brilhante. Canais são muito eficientes em entregar informações para grandes volumes de pessoas.
O que é um Canal no WhatsApp?
No WhatsApp, podemos ter conversas individuais, grupos, atualizações de status e canais, que funcionam como listas de distribuição. As pessoas aderem ou assinam os canais e passam a receber as mensagens de atualização enviadas por quem os administra. Não é possível responder as mensagens e nem postar conteúdo. Os usuários podem apenas interagir com as atualizações por meio de emojis e encaminhar as postagens para conversas e grupos na plataforma. Apenas os administradores postam nos canais.
Diferentemente de postagens em plataformas como o Instagram, em que as atualizações de um perfil são mostradas apenas para uma parcela dos seguidores, num canal do WhatsApp, a entrega é plena. Todo mundo que está no canal será alertado de uma nova publicação (desde que configure o aplicativo para tal). Isso proporciona um bypass na manipulação algorítmica operada no Instagram, no Twitter, no TikTok ou no YouTube, por exemplo.
O Canal do “Exército do Lula” tem mais usuários/seguidores do que os perfis do próprio Lula ou do André Janones no Instagram, por exemplo. Uso o Instagram como elemento de comparação aqui porque em 2026 esta parece ser a plataforma de uso adotada pela maior parte dos brasileiros conectados à internet.
O Instagram tem por volta de 150 milhões de usuários no Brasil. Embora o volume de brasileiros na plataforma seja gigantesco, o Instagram não é a plataforma mais eficiente para comunicação. Especialmente se o que se busca é a mobilização social em prol de uma causa coletiva (como foi o caso da movimentação pela eleição de Lula em 2026). Em média, o Instagram mostra uma postagem para algo entre 3 e 5% dos seguidores de um perfil. Em casos tidos como sucesso, a entrega varia entre 6 e 10%.
Para o caso do Exército do Lula, então, o canal no WhatsApp mostrou-se incomparavelmente mais eficiente. Tomemos o deputado André Janones, por exemplo. No começo de Outubro de 2026 seu perfil no Instagram tinha pouco mais de três milhões de seguidores. Ao final da campanha de segundo turno (25 de Outubro) ele alcançou 6,8 milhões de seguidores. Mesmo se tomarmos o número final de seguidores dele (6,8 milhões) e considerássemos que suas postagens chegassem a 10% de seus seguidores, cada atualização dele no Instagram chegaria a 680 mil pessoas.
No canal do WhatsApp, cada um dos mais de 10 milhões de usuários que resolveram aderir a este espaço recebiam as atualizações postadas ali. Para efeitos de ações, não há qualquer possibilidadse de comparação; o canal é absurdamente mais eficiente.
Só que tem um porém. Sempre tem um porém.
Instagram e WhatsApp são produtos do Facebook/Meta. Esta empresa foi flagrada ativamente interferindo no processo eleitoral brasileiro em favor de Flávio Bolsonaro. Não foram poucos os exemplos. Desde restrição de publicações de campanhas de impulsionamento até a boicote na ferramenta de IA passando pela interferência no alcance orgânico de postagens.
O Estadão detalhou os dados apresentados na ação judicial em que a campanha de Lula argumenta que o alcance médio dos Reels de Flávio Bolsonaro foi quase três vezes maior que o de Lula (apesar de Lula ter mais seguidores); e há suspeita de que a Meta permitiu anúncios políticos pagos em moeda estrangeira.
Já O Globo reportou que a campanha de Lula acionou a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral Eleitoral, alegando que a campanha de Flávio recebeu da Meta “vantagens econômicas não declaradas” (estimadas em cerca de 7,4 milhões de reais em exposição).
A Agência Brasil noticiou que especialistas da ONU expressaram preocupação com a atuação da Meta nas eleições brasileiras, mencionando relatos de que “perfis de um dos lados foram mais afetados” e que mensagens internas da empresa reconhecem que as contas de Lula foram prejudicadas.
Um outro exemplo, para ficarmos apenas em quatro: o G1 informou que a campanha de Lula acusou a Meta de descumprir decisão judicial, citando exemplos específicos: a ferramenta de IA gera imagens com “Vote 22” para Flávio, mas se recusa a gerar para Lula; e o mecanismo de tradução automática traduz comentários de “futuro presidiário” (futuro prisioneiro) como “future president” (futuro presidente).
Sendo WhatsApp e Instagram ferramentas da mesma empresa (Meta), não se pode esperar que elas seguirão funcionando da mesma forma no futuro.
Os exemplos que acabei de dar mostram que esta empresa adotou um lado para beneficiar durante a campanha eleitoral, o que por si só já é gravíssimo. Seria muita inocência acreditar que ela não repetirá este apoio no futuro e também que ela não melhorará suas lógicas intervencionistas, visto que agora foram flagradas em delito.
Nada impede também que a Meta passe a intervir no alcance de postagens em canais. Nada impede que ela – inlcusive – despriorize um canal a seu bel prazer (ou atendendo pedidos de um candidato querido). Sabemos que ela já opera dessa maneira no Instagram. Um relatório da Human Rights Watch de 51 páginas documentou 1.050 casos de censura em mais de 60 países. A entidade identificou o shadow banning (redução significativa da visibilidade sem notificação) como um dos seis padrões de censura, com pelo menos 100 ocorrências recorrentes. O relatório aponta que a aplicação da política de “Organizações e Indivíduos Perigosos” (Dangerous Organisations or Individuals) foi usada de forma excessiva para restringir discursos pró-Palestina.
Não dá para acreditar que ela não vá fazer algo semelhante (ou ainda mais sofisticado) no futuro para que a sua intervenção em algum outro processo eleitoral (ou mesmo alguma movimentação social mais relevante) seja mais eficiente.
Por isso eu coloquei no título deste texto que jamais teremos outro “Exército do Lula”. É bem difícil que o que aconteceu no Brasil em Outubro de 2026 se repita. A Meta (ou o Google, ou o TikTok ou o Twitter…) jamais permitirá uma nova derrota em seu próprio território. Essa é a única certeza que temos neste momento.
O quê fazer, então?
A solução é tão simples quanto difícil. Não utilizar qualquer plataforma da Meta no futuro. Para todos os efeitos, também do Google, do TikTok e do Twitter ou de qualquer outra grande empresa de tecnologia.
É uma solução simples porque é óbvia e clara. É, ao mesmo tempo, difícil porque não se enxerga alternativa. As grandes empresas de tecnologia cresceram tanto e foram adotadas como parte da estrutura coletiva de comunicação do país de tal forma que parece impossível vivermos sem elas. Mas é possível, sim. E, pelo amor de tudo, a solução não é o BlueSky e nem mesmo o Koo. O BlueSky é apenas mais uma plataforma comercial algoritmicamente manipulada e ávida por viabilizar-se financeiramente por meio de anúncios publicitários, tal qual como o Instagram, o TikTok e o YouTube. A solução é a adoção de plataformas livres e que proporcionem a soberania comunicacional no contexto digital de forma efetiva.
O caminho é a liberdade e a soberania.
Plataformas sociais que operam usando o protocolo ActivityPub tem este potencial. Imagine um partido, um movimento social, marca comercial, uma Universidade, uma Prefeitura ou uma escola, cada uma com seu servidor Mastodon, por exemplo. Todos que se conectarem a estes espaços e seguirem os perfis que ali publicam serão impactados por 100% das postagens publicadas. É um ganho enorme quando comparado com os 3-5% de alcance que uma publicação tem no Instagram. É o mesmo alcance, a mesma entrega que se tem com o canal de WhatsApp. Entretanto, sem que seja controlado por uma empresa estrangeira com um histórico de abuso de dados coletados dos usuários e, como relatado acima, de intervenção em campanhas políticas/eleitorais.
O controle de cada servidor (ou instância) no Mastodon, bem como a moderação de conteúdo ficam a cargo da entidade que a criou. A estrutura é de responsabilidade de quem controla a instância, bem como o estabelecimento das regras de publicação no servidor. Certamente um ônus que vale muito à pena assumir tendo em vista os benefícios proporcionados com a liberdade na comunicação.
O Mastodon, no contexto do protocolo ActivityPub é o equivalente ao Twitter (com algumas diferenças para melhor, claro). O Pixelfed é semelhante ao que temos no Instagram. Já o Loops, se assemelha ao TikTok e o PeerTube, é o equivalente ao YouTube. Só que existem outras diferenças, além do alcance pleno (entrega de 100% das mensagens a todos os seguidores) e do controle total dos espaços de comunicação. Estes serviços conversam entre si. Um perfil no Mastodon pode ser seguido por outro no Pixelfed e vice-versa.
O contexto de plataformas que funcionam usando o protocolo ActivityPub permite esta interoperabilidade e conversa de maneira nativa, muito diferente do cenário que temos hoje nas plataformas comerciais. Nos espaços comerciais, as empresas que os controlam não tem interesse que seus usuários saiam da plataforma A e vão consumir conteúdo na (ou da) plataforma B. Isso inexiste no universo de plataformas que funcionam usando o protocolo ActivityPub (ou Fediverso).
Além disso, diferentemente dos canais de WhatsApp, nos espaços das plataformas do Fediverso, todos podem interagir, responder e dialogar com as publicações. Ou seja: é um cenário de comunicação muito melhor para todos e mais eficiente do que o que temos hoje com a prevalência de plataformas comerciais.
O melhor disso tudo é que estes espaços já existem e é relativamente fácil implementar novas instâncias. Tudo o que precisamos fazer é passarmos a usar estas soluções. Já existe um bocado de gente usando o Mastodon e outros serviços que rodam em cima do ActivityPub no Brasil. Algumas destas iniciativas podem ser encontradas aqui. Há também material muito legal para explicar melhor o que é o Fediverso aqui.
O assunto já está sendo dicutido, o que é muito bom. Agora, o que precisamos é trabalhar a migração para estes espaços e criar novos servidores / instâncias para que mais gente possa chegar. A gente sabe que é possível fazer isso. Então precisamos apenas fazer. E a gente tem um horizonte de tempo para conseguirmos fazer isso. As próximas eleições no Brasil são daqui 2 anos. Cada segundo conta.





