Internet e Web não são sinônimos

Uma coisa que eu dedico uns bons 20 minutos de minhas primeiras aulas da disciplina de Comunicação e Cultura Digital é a diferença entre a Web e a Internet. Faço isso porque entendo que para entender comunicação digital precisamos entender conceitos básicos. Por mais que a gente ache que já os sabe.

A prova da necessidade desse investimento de tempo na aula logo na primeira sessão foi demonstrada ontem. Veja imagem abaixo recebida em uma das várias newsletters que eu assino:

Perceba que ao final do parágrafo os jornalistas indicam que a Web e a Internet são a mesma coisa.

Isso é errado. A Internet é a rede das redes (Internet significa INTERconnected NETworks). A Internet é a estrutura. É a rede da sua casa, ligada à rede do seu provedor, que se liga às redes de diversos outros provedores e forma a rede que liga todas as outras por meio do protocolo TCP/IP (Transmission Control Protocol / Internet Protocol).

Isso não é detalhe. A minha preocupação na aula é a de justamente formar profissionais de  Comunicação que não cometam o erro acima. Esse é um erro que indica que você não sabe do que está falando. Pra mim, é um erro grave. Daqui ha pouco, alguma ferramenta geradora de lero-lero vai se apropriar deste texto da newsletter e começar a falar mais besteira para pessoas que buscam informações nestes lugares.

Então, de uma vez por todas. A Web é um pedaço da Internet. É um subconjunto. Criada pelo Tim Berners-Lee na virada dos anos 1980 para 1990. A Internet já existia há um bom tempo quando a web foi criada.

Em minha primeira aula da disciplina eu procuro deixar isso bem claro.

A Web é um subconjunto próprio da Internet, e a diferença entre Internet e Web (Internet menos Web) não é vazia – ou seja, existem serviços na Internet que não são Web.

A Web é um subconjunto próprio da Internet, e a diferença entre Internet e Web (Internet menos Web) não é vazia – ou seja, existem serviços na Internet que não são Web.

Encontrei um erro no livro do Fernando Morais

Estou lendo a segunda parte a biografia do Lula, escrita pelo Fernando Morais. O livro é muito bacana, à exemplo do primeiro. A leitura é fluida e a gente pode ter acesso a uma série de eventos e dados que passaram batido ou que ficaram lá enterrados na memória.

Por exemplo: eu não me lembrava que a Erundina havia sido ministra do Itamar. Isso me passou batido. Achei o contexto e a história em torno deste fato bastante interessantes.

Só que eu encontrei um errinho neste segundo volume que me deixou com a pulga atrás da orelha.

Estou no trecho em que é retratada a primeira Caravana da Cidadania, em que Lula percorreu boa parte do país em sua campanha para as eleições de 1994. O ano da Caravana é 1993. No trecho em questão o autor fala do esforço que a equipe tinha em preparar a Caravana com informações sobre as cidades pelas quais iriam passar. Fala do contexto anterior à internet em que as pesquisas sobre as cidades precisavam ser feitas manualmente e presencialmente em diferentes órgãos e consultando variadas fontes de informação. Daí o autor coloca uma curiosidade sobre Varginha e o incidente com a suposta aparição de ETs.

Ok, interessante ver vertentes políticas diferentes com interpretações e estratégias distintas sobre como explorar o ocorrido na cidade. Isso é informação interessante. Só que tem um problema. O ocorrido em Varginha foi em 1996. A Caravana da Cidadania aconteceu em 1993/1994. Então o tempo não casa. Há um erro ali. Eu detectei o erro porque me lembro bem dessa época. Mas… a pulga que ficou atrás de minha orelha é: e as outras coisas que eu possívelmentente não peguei? Agora eu vou terminar a minha leitura com um olhar um pouco diferente…

How I managed to stop KMail notifications after uninstalling it

I never sit still. I’m always coming up with something to keep myself busy, and I often end up complicating things. The upside is that I occasionally learn something new.

A few months ago, when I decided to switch from Mint to Debian with KDE, I also gave KMail a try. It’s an excellent email client, but it lacks an integrated calendar, so I had to use Merkuro (which isn’t quite ready yet) and later KOrganizer.

The problem was that neither KMail nor KOrganizer is available on Android, so I was using Thunderbird on my phone. That’s when I decided to use Thunderbird on my computer as well; I uninstalled KMail and moved on with Thunderbird.

However, for some reason I didn’t understand at the time, KMail kept sending me notifications about new emails even though it was no longer installed.

That’s when I learned that KMail relies on a host of other KDE services; even after the program is deleted, these services—which are shared by other packages—remain installed. One of them handles notifications.

The easiest way to stop receiving notifications from KMail, unfortunately, is to reinstall it and remove the email accounts and disable notifications in settings. There are threads in various forums going back a few years with users who have the same issue.

So, I had to reinstall KMail, remove my email account from it, and then uninstall the software again. This time, the notifications stopped, and now I’m only alerted by Thunderbird when a new message arrives.

Deceptive design aplicado nas opções de IA do Firefox

Aqui vemos um exemplo deceptive design pattern ao vivo em seu ambiente natural.

Os controles para desligar as ferramentas de IA no Firefox poderiam ser bem melhores. Há uma série de ações de design que parecem (estou usando de eufemismos) ter sido pensadas para confundir os usuários.

A começar pela forma que são colocadas as principais opções. Infelizmente deve-se levar em conta o fato de que as ferramentas vêm ligadas por padrão, quando deveria ser o contrário. Daí essa inversão mudaria tudo. Entretanto, a escolha feita faz com que o comando venha de uma forma que não parece a mais lógica para o usuário. você deve ligar o toggle para que seja desligada a IA. E ainda colocam o verbo BLOCK para deixar tudo mais confuso.

O uso deste verbo e a escolha da interface proporcionam uma combinação péssima que confunde as pessoas. Você liga o toggle para desligar as funcionalidades de IA.

Isso não é coisa feita por amadores. É gente experiente na arte de enganar. Muito decepcionante ver o Firefox fazendo isso.

A aula de ontem poderia ter sido um tiktok

Acordei hoje pensando na aula que dei ontem. Não foi muito diferente das que lecionei ao longo do semestre.

22 alunos presentes. 13 alunos ausentes. Isso na chamada. Na realidade eu falei com as paredes por uma hora e quarenta minutos. Todos ausentes.

Estava terminando um texto que fala do Capitalismo de Vigilância (https://journals.sagepub.com/doi/10.1057/jit.2015.5). Um dos assuntos finais da disciplina.

Na minha cabeça, este é um assunto muito legal, mas acho que os alunos não pensam da mesma forma.

Pensando bem acho que a disciplina inteira deve ter sido um sofrimento para eles. Talvez seja o formato de aula expositiva. Mas como fazer com que uma turma leia os textos e engaje com assuntos que não lhes parecem ser interessantes?

Para o próximo semestre, repensarei este conteúdo por completo. A forma das aulas talvez seja a maior dificuldade e a coisa mais difícil de alterar. É conteúdo teórico, repleto de conceitos e de contextualização histórica. Difícil pensar em um formato diferente para trabalhar…

Tento evitar a todo custo usar aulas para passar videos. Deixo as referencias de videos para que os alunos assistam em outros momentos. Durante todo o semestre reforcei com os alunos que acho que os encontros em sala de aula são melhor aproveitados com debates e conversas sobre os textos. Só que ninguém leu os textos ao longo do semestre e eu fiquei falando sozinho.

Pode ser que o que eu falo seja assunto que eles já conheçam e do qual estejam cansados. Talvez seja a minha abordagem que é ultrapassada.

Olhando em retrospecto talvez fosse melhor ficar passando vídeos…

Viva a internet!

Esta dica é super bacana para quem, como eu, vira e mexe, passa raiva com a FSP bloqueando a cópia de textos.

Frequentemente eu uso textos de colunistas da Folha ou do UOL para ilustrar discussões em sala de aula. Fazer a transposição do site para um PDF e depois compartilhar é sempre um parto. Hoje eu descobri esta dica, que achei bastante providencial: Como copiar textos da Folha e outros sites que não deixam.

Acabo de usar a dica do Tiago Madeira para transformar um texto em material de discussão referente aos impactos da adoção de GenIA na sociedade. Funcionou que foi uma beleza.

A inteligência artificial é tão inteligente…

Eu adoro a inteligência artificial. Ela é tão inteligente! Vai revolucionar o meu dia-a-dia.

De certo, vou ponhar meu computador para trabalhar tal qual a inteligência artificial me recomendou.

Agora sério… Você confiaria em um produto que se intitula “Inteligência Artificial” e que inventa de usar ponhar da forma como a que está aplicada nesta frase?

Entendo que por mais que seja um regionalismo e que algumas circunstâncias o uso é até aceito, você não acha que a ferramenta deveria ser inteligente o suficiente para saber que eu não estou no interior do estado de São Paulo e muito menos no Rio Grande do Sul (onde este uso é parcialmente aceito, embora considerado coloquial)? Mesmo se fosse este o caso, a conjugação verbal está equivocada. Para uma ferramenta que algumas pessoas (lunáticos, eu sei) acham que vai aniquilar com empregos de boa parcela da população, um erro desse tipo é inaceitável.

De qualquer forma, acho que tem sido dado crédito demais para estas ferramentas. A nossa sociedade está desenvolvendo uma dependência perigosa destas ferramentas de geração de conteúdo a partir de prompts.

Com estas ferramentas, claro, as respostas chegam rapidamente. Entretanto, não há aprendizado. Esta etapa está sendo pulada. As pessoas acham que estão ganhando tempo, mas isso não está acontecendo. O que ocorre é a criação de dependência por estas respostas rápidas que, sem o devido repertório e conhecimento para poder checar, nem se sabe se são corretas. Mas isso não é o importante imediatamente. O que é importante é que o prompt foi respondido e que agora podemos fazer a próxima tarefa. Uma hora a conta vai chegar. O aprendizado que não aconteceu será cobrado e estes profissionais serão desafiados. Só que sem saber como aprender, a bomba vai estourar.

You are being identified and tracked by YouTube when you share something from their platforms

I listen to music very loudly in my headphones and sing/scream silently while walking my dog on the streets.

Every now and then I share the songs I listen to on my mastodon profile. When I do this, I take care to remove the identifying information that YouTube has started putting in all the URLs that we share from its video or music platforms.

To remove it is easy, just delete the part that has the code “&si=xxxx…”. This is the identifying and tracking information that YouTube forcibly places in all the URLs of the materials we share from its platforms.

I recommend that you also remove this information whenever you share something from there.

Entendedores entenderão

E se a gente decidisse fornecer menos dados para as grandes plataformas? E se a gente resolvesse tirar nossos dados das grandes plataformas?

Eu já não tenho nada da Meta em minha vida pessoal. Estou próximo de não ter nada da Microsoft em minha vida pessoal também. O linkedin é uma última coisa da Microsoft que ainda tenho atrelado a um e-mail pessoal. Resolvi fazer uma coisa diferente com esta plataforma, que preciso usar para uma parte de meu trabalho.

Eu resolvi remover todas as minhas informações pessoais possíveis do meu perfil no linkedin. Tudo bem que a plataforma já sabe muito sobre mim, mas minha decisão é a de que ela não vai saber mais nada sobre mim a partir de agora.

Removi todas as minhas experiências e informações de formação. Sou apenas um perfil lá com conexões já estabelecidas. Novas conexões, claro. Sempre muito bem vindas. Quem me conhece pessoalmente sabe o que eu faço então não precisa ter isso estampado em meu perfil.

Sei que não é a situação de mundo perfeito, mas é o que dá para fazer sem prejudicar meu trabalho. De qualquer forma, quanto menos informações as plataformas tiverem sobre mim, melhor.

Tá todo mundo louco

Eu tenho plena convicção de que o LinkedIn é um experimento social em larga escala. Daqueles para os pesquisadores descobrirem quão loucas são as pessoas mas que, ainda assim, conseguem viver em sociedade.

Eu entrei no LinkedIn hoje e fiquei lá um tempo olhando para aquele abismo. Olhei demais para o abismo e o abismo olhou de volta pra mim. Veja o que o abismo me mostrou:

Bem, vamos lá então para mais um episódio em que uma pessoa aleatória da internet (no caso eu) comenta o que outra pessoa aleatória da internet (no caso, essa pessoa do LinkedIn) publicou…

Comecemos pelo básico

Em primeiro lugar, vamos a um procedimento básico que a gente ensina para estudantes de Publicidade nos primeiros meses de curso.

Qualquer projeto de comunicação, seja com um novo cliente ou com um cliente antigo, precisa começar com uma reunião de briefing.

Esta reunião é muito importante porque nela a gente (profissional de Publicidade) procura descobrir junto ao cliente o seu problema específico de comunicação e as informações que ajudam a entender este problema, o cenário em que este problema se insere e o que mais puder interferir no problema (no caso, percepções de mercado, concorrência, consumidores, etc…).

Como consequência, ajudamos o cliente a definir os objetivos de comunicação e, só com este conjunto de informações em mãos, a gente parte para a próxima etapa, que vai implicar em pesquisas para descobrir questões complementares vinculadas ao que o cliente falou e informações de mercado que podem comprovar ou até mesmo contrariar percepções iniciais do cliente.

Enfim. A gente faz uma reunião de briefing para – depois dessa reunião – ter um documento chamado Relatório de Briefing.

Quando eu falo “a gente” eu me refiro ao profissional que faz o Atendimento. é ele que se reúne com o cliente. E é ele que preenche o relatório. O cliente nem fica sabendo desse documento. Isso não é trabalho do cliente. Essa é uma atividade do profissional de Atendimento.

Enfim… este documento que é gerado pelo profissional de Atendimento vai ser entregue e devidamente contextualizado para as equipes de Planejamento e Criação que vão começar a trabalhar a concepção da solução de comunicação para este cliente.

Pois bem. Agora vamos voltar e ler o que a pessoa descreve na situação do post que foi publicado no linkedIn. Perceba que a pessoa apenas envia um documento para o cliente, pede para ele preencher e tem a etapa do briefing como resolvida. Só que não tem nada de resolvido quando as pessoas fazem isso.

O briefing é um documento que o Atendimento preenche depois de ter se reunido com o cliente. Não é um formulário que o Atendimento envia para o cliente pelo WhatsApp. A gente precisa compreender bem o que está acontecendo com o cliente e qual é o problema dele. Por isso a gente faz uma reunião. Normalmente essa reunião é feita lá na empresa do cliente.

Uma reunião de briefing é parecida com uma consulta médica. Numa consulta, o médico faz perguntas pra gente para descobrir questões que estejam relacionadas ao sintoma que levou o paciente a procurar o médico e que não necessariamente a ele pensa que se relacionem com o sintoma. Por exemplo: recentemente eu fui ao Otorrinolaringologista para investigar uma dor de garganta que eu tive que estava se prolongando por muito tempo, mesmo depois de ter tratado uma sinusite grave. O médico fez uma série de perguntas e sacou que meu problema não era uma sinusite não curada, mas sim refluxo. Ele perguntou coisas sobre meus hábitos alimentares e até a hora do dia em que eu sentia mais dor na garganta. Coisas que eu nem pensava se relacionar com a dor de garganta que eu sentia. Percebam uma coisa importante: o médico conversou comigo; me examinou. Ele não mandou um formulário do google para eu dizer o que eu estava sentindo.

Sacou? Se não sacou, eu explico. Um briefing é construído a partir de conversa com o cliente, de uma investigação que a gente faz com ele para compreender onde seu problema pode estar. A gente tenta descobrir nessa conversa como ele enxerga o mercado em que atua, onde pode haver uma oportunidade e onde pode haver algum desafio…

A gente tenta descobrir isso conversando e interaginco com o cliente, conhecendo a sua empresa, como funciona o seu negócio, como opera a cultura dessa instituição, como o consumidor dele compra o seu produto… Essas coisas a gente não consegue descobrir com um formulário ou um documento que o cliente preenche de forma autônoma depois que a gente enviou pelo WhatsApp.

A gente descobre um monte de coisa conversando com o cliente e depois indo a campo para validar aquilo que o cliente falou e também para descobrir mais coisas. Isso é (ou deveria ser) básico para um profissional de Publicidade. A gente não consegue fazer um plano de Comunicação nem conceber uma campanha ou ação de publicidade sem saber para que ela vai servir, para quem ela vai ser dirigida, qual será seu objetivo e qual o problema que ela poderá ajudar a resolver.

Então, se isso não era familiar a você, agora passa a ser. Um profissional de atendimento precisa conversar bastante para entender do cliente e do negócio dele. Conhecer o mercado e o cenário. Isso não se faz com um documento preenchido pelo cliente. Isso se faz em uma reunião de briefing.

Na sequência, o profissional de planejamento não consegue conceber um plano de comunicação e nem um profissional de criação não consegue construir uma ideia de campanha sem uma base bem fundamentada. Isso vem do briefing e de pesquisa de mercado.

Voltando ao post

Então, vamos voltar à situação do post do LinkedIn. A gente jamais deve iniciar um processo com o envio de um documento pelo WhatsApp e esperar que o cliente preencha. Por mais que você seja um ás na concepção de formulários, as informações de um briefing são qualitativas em sua maior parte. Elas virão de uma conversa. Isso é importante para o processo e também para o seu negócio de Publicidade. Falo assim porque o seu cliente vai valorizar muito mais a relação que está construindo com você se você estiver lá, escutando seus problemas, tentando entender a sua situação e buscando ajudá-lo…

Por isso, pelo amor de tudo o que você acredita: não comece um projeto de comunicação mandando um documento para o seu cliente preencher e – por tudo – não chame isso de Briefing. Não é.

Se há uma coisa correta na postagem feita é a ideia de que um trabalho sem um briefing, não é um trabalho que dá certo. O resto da postagem, pelo amor de bacon, tá tudo errado.