Pensamentos a queima-roupa sobre o canarinho de três pernas

Ontem foi postado no perfil oficial da CBF no Instagram este vídeo que eu roubei de uma postagem no LinkedIn. O vídeo – sintético – mostra um canário de três pernas quebrando uma gaiola.

Em tese, esse pássaro simboliza a força da seleção brasileira de futebol (estamos em ano de copa do mundo) na ocasião do lançamento de novos uniformes da equipe. A postagem foi feita em parceria com a Nike, que é patrocinadora da seleção brasileira de futebol e fornece os uniformes para a esquadra. Guarde estes dois nomes: CBF e Nike.

Bem, qual é a questão? Para começar, é um material mal feito. Acho que se enquadra fácil na categoria de AI Slop. Demandou pouco esforço, é mal revisado, a qualidade dos elementos é ruim. Falta de vergonha na cara total. Coisa que não se espera destas duas marcas: Nike e CBF. Não se espera porque são marcas com muita verba e capacidade para fazer coisas bem feitas.

Estas duas marcas têm condições de contratar um profissional que vai ilustrar um canário bem estiloso, em uma gaiola bem legal e fazer este canário evidenciar a força rompendo as grades da gaiola. Só que elas não fizeram isso. Minha impressão: preguiça, falta de critério e de vergonha na cara.

Quando esta coisa de fazer imagens e vídeos usando ferramentas de geração de conteúdo apareceu eu comecei a ficar preocupado e passei a comentar em sala de aula bem como com colegas profissionais: a gente (publicitários) precisa ficar de olhos abertos para isso, porque seremos os primeiros prejudicados com a disseminação deste tipo de produção.

Um exemplo disso que não me canso de citar é o da prefeitura de Uilanópolis (Pará), que fez um vídeo gerado por este tipo de ferramentas em 2025 para divulgar a sua festa junina.

Na ocasião eu argumentei algo que vale a pena repetir aqui porque o exemplo da CBF repete o que foi feito pela tal prefeitura e me ajuda muito no ponto que estou defendendo aqui: Quando esta coisa de fazer vídeos apareceu uma coisa que passaram a falar em defesa do procedimento é que clientes com pouca ou nenhuma verba seriam os beneficiados por causa da facilidade de se produzir. Só que uma prefeitura não é um cliente com pouca ou nenhuma verba.

Pense no vídeo da prefeitura… Veja a quantidade de cenários, figurinos, enquadramentos, personagens, música… Muitos profissionais teriam sido empregados para fazer este vídeo: carpinteiros para fazer o cenário, produtores de elenco, atores, figurinistas, costureiras, técnicos de iluminação, elétrica, som, fotografia, operadores de câmera, editores, enfim… Muita gente teria trabalho para fazer um vídeo destes. Mas a prefeitura escolheu o caminho mais fácil, preguiçoso e barato. Repito: verba, não falta.

São os clientes grandes que estão escolhendo fazer estas porcarias e isso vai prejudicar muito o mercado publicitário.

O mesmo conjunto de argumentos pode ser usado para entendermos o tamanho da palhaçada que a CBF e a Nike fizeram. Poderiam ter contratado alguém para ilustrar, outra pessoa ou empresa para construir ou transformar o desenho em algo tridimensional, outra para fazer os efeitos e a animação. Alguém para trabalhar a composição final, direção de arte e montagem da peça. Sem mencionar a equipe criativa que trabalharia dando a direção. Muita gente exercitando funções, movimentando a economia e gerando um trabalho bacana. Mas escolheram o caminho mais fácil, porco e preguiçoso.

Infelizmente estes exemplos, somado ao da Coca-cola (que é um cliente que, convenhamos, tem dinheiro infinito), evidenciam que quem está aproveitando para fazer estas porcarias são os clientes grandes, empresas com muita verba e que poderiam facilmente contratar equipes, gerar empregos e ter trabalhos bonitos feitos por profissionais capacitados que estão usando e abusando das ferramentas de geração de conteúdo.

O resultado é o que se pode notar nos exemplos que eu coloquei aqui: peças sem personalidade, fracas, preguiçosas. Muito ruins no quesito criatividade. Geram uma repulsa e são visualmente bastante datadas. Marcadas pela falta de qualidade. O único resultado que este tipo de peça gera é o buzz negativo.

Agora, voltando ao canário… Pode ter sido uma escolha? Acho difícil. Se escolha fosse, quando apareceram as primeiras críticas (e foram muitas) a CBF retirou este material do seu perfil do Instagram. Como eu sei disso já que eu não tenho instagram? Mais uma informação que eu roubei do post do LinkedIn, escrito pelo Peçanha (achou que eu não daria o crédito, né?).

Hoje comentei isso em sala de aula e uma aluna ponderou: “mas a peça deu resultado, tanto que você está comentando sobre ela”.
O que respondi a ela repito aqui: Não é bem assim. Eu estou comentando porque sou um profissional de Comunicação que percebeu o impacto negativo desta ação. Este não é o tipo de reverberação que faz bem para a marca. Por mais que pessoas estejam falando da CBF e da Nike, não são conteúdos positivos. Nem todo barulho que se faz pode ser bom para a marca.

Estes exemplos de peças mostram que o público geral rapidamente esquece das ações porque elas são ruins e feitas sem qualquer cuidado estratégico ou tático com a qualidade. Estas três peças poderiam ter sido feitas de forma muito diferente, por seres humanos, com muita qualidade e serem produtos de comunicação publicitária memoráveis que as pessoas se lembram e gostam de ter visto. Não é o caso. Então não acho que o canário de três peças seja eficiente em nenhum sentido além de evidenciar que estas ferramentas devem ser evitadas. E não acho que as ferramentas vão melhorar e as peças vão ficar mais bacanas no futuro. Para mim o problema não é a qualidade técnica da ferramenta; é anterior a isso.

Não é só porque a tecnologia existe que a gente tem que usar. Não é só porque dá para fazer de um jeito, que as coisas precisam ser feitas desse jeito. A pior coisa que um ser humano conseguir fazer com seus próprios méritos será infinitamente superior à coisa mais sofisticada que uma ferramenta dessas solta.

E não adianta vir com o argumento de que quem fez os prompts merece os créditos. Fazer uma peça bacana de publicidade não é fazer um prompt legal, é saber tocar as pessoas. Nenhuma destas peças toca. Estes exemplos apenas aproximam estas marcas da mediocridade.

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