Você prefere pagar com seus dados ou com dinheiro?

TL;DR –> Com dinheiro é melhor.

A migração para um modelo federado de mídia social demanda uma evolução na forma de encarar as relações entre as pessoas e as estruturas que são usadas. Tudo tem um custo. Dividir esse custo coletivamente pode ser mais interessante para as pessoas do que pagar bem caro (com seus dados) para usar um serviço “gratuito”.

Na era em que a mídia de massa era prevalente, os veículos se mantinham vendendo espaço em suas grades de programação para que empresas mostrassem anúncios para a audiência. Entendemos isso bem. É uma forma plenamente válida de manter um negócio de comunicação.

Um anunciante comprava espaço para mostrar uma mensagem publicitária no intervalo da novela. Daí toda a audiência da novela veria aquele anúncio. O mesmo anúncio.

No contexto digital, uma alteração importante acontece. Esse modelo de viabilização de negócios por meio da venda de espaço para publicar anúncios persiste, mas com uma diferença importante. Como na internet todas as informações são entregues para dispositivos individualmente identificados, quem entrega a informação pode trabalhar esse processo de forma a direcionar a informação para contemplar um encaixe cada vez mais perfeito às características de quem está solicitando a informação.

Enquanto, no caso da TV aberta, o mesmo anúncio era mostrado para todos da audiência, no caso do digital um veículo (vamos pensar o YouTube como um veículo, os canais como programas e os vídeos como episódios) pode explorar o fato de que cada pessoa pode ver um anúncio diferente. Nesse sentido, o YouTube será sempre incentivado a buscar o máximo de informações sobre cada pessoa da audiência para conseguir entregar a cada pessoa o anúncio mais apropriado para o anunciante que busca vender algo para ela.

A gente sabe que, quanto mais informações conseguirmos reunir sobre uma pessoa, mais conhecemos sobre ela e, consequentemente, melhor conseguimos prever seus comportamentos e suas reações. Nesse sentido, se eu sou um anunciante que quer vender, por exemplo, suplementos alimentares para ganho de massa muscular, fará mais sentido eu anunciar para pessoas que eu sei que estejam em processo de realização de atividades para o ganho de massa muscular, certo? É aí que o YouTube se esforça para identificar todo mundo que usa a plataforma e filtrar, dentro daquele mundo de gente, quem está indicando estar nesse processo.

Se eu sei que o Caio tem um telefone Android, usa o aplicativo do Google de Mapas para o trajeto de sua casa para uma academia de musculação diariamente e fica lá naquela academia por uma hora e vinte minutos cada manhã, eu posso presumir que ele está nesse processo. Como o sistema Android é do Google, o aplicativo de Mapas é do Google e o YouTube é do Google, é possível juntar essas informações sobre o Caio e saber que ele seria um bom alvo para receber um anúncio de suplementos alimentares quando for assistir a um vídeo no YouTube.

Ainda nessa pegada, se o vídeo em questão for sobre dicas de prática de atividades de musculação, fica ainda mais evidente que o Caio é uma boa pedida para mostrar o tal anúncio. Se, no sistema Android do celular do Caio, o Google consegue monitorar os aplicativos instalados e é identificado o aplicativo da academia, a presunção da adequação fica ainda mais forte. Se o Caio usa o aplicativo do Google de Calendário para organizar as suas sessões de musculação e suas outras atividades pessoais e recebe e-mails de alerta no seu Gmail (que também é do Google) sobre alertas de preços em uma loja de suplementos alimentares, a presunção que o Google está construindo da adequação para receber aquele anúncio fica ainda mais forte.

Para completar, precisamos lembrar que o Google tem um serviço de publicidade que junta todas essas informações e facilita a vida de um anunciante de suplementos alimentares a fazer suas mensagens de oferta de venda chegarem a pessoas com as características do Caio. O Google não vai, por meio dos seus serviços de publicidade, dar o acesso direto ao Caio para o anunciante. Mas ele vai proporcionar ao anunciante que direcione seu investimento em publicidade para mostrar a mensagem para o Caio. Esse anúncio vai poder aparecer no YouTube, em páginas de resultado de busca do Google (ambos espaços controlados pelo Google) ou ainda em sites de parceiros que receberão uma comissão do Google para mostrar esses anúncios.

É um baita negócio para o Google e, claro, para os anunciantes. Apenas para o Caio esse esquema não é tão vantajoso, porque ele normalmente não tem muita noção da quantidade de dados sobre ele que o Google está capturando para poder ajudar o anunciante a vender um suplemento alimentar.

A mesma lógica funciona para a Meta. Tal qual o Google, a Meta tem uma ampla gama de plataformas que o Caio usa (WhatsApp, Instagram, Facebook, Threads) que proporcionam muitos dados importantes para que ela possa vender espaços publicitários para anunciantes. Pensemos que o Caio, em algum momento, quis compartilhar a localização com seus amigos para informar que estaria a caminho de um encontro para comemorar um aniversário. Ao fazer isso, o WhatsApp solicitou a permissão de acessar a localização do Caio o tempo todo (mesmo quando o Caio não estivesse com o WhatsApp aberto). Isso já dá à Meta acesso à localização do Caio durante as 24 horas do dia. A Meta agora, bem como o Google, sabe que o Caio se desloca de casa para a academia diariamente sem precisar de um aplicativo de mapas para isso.

Como o WhatsApp é o aplicativo de mensagens que o Caio usa para conversar com todos em seus círculos, a Meta também sabe que o Caio está negociando com um vidraceiro a troca de um vidro da janela de sua cozinha que quebrou na última chuva. Sabe que a esposa do Caio pediu a ele que compre ovos quando vier pra casa do trabalho. Sabe quem são os amigos do Caio que se encontraram com ele naquele dia em que ele resolveu compartilhar a localização para informar que estava a caminho do bar.

A Meta também é dona do Instagram e, com todas as informações sobre o Caio e seu comportamento, pode mostrar a ele anúncios no Instagram que vão de encontro aos hábitos e ações que o Caio desempenha. A Meta tem também a sua plataforma de anúncios e vai proporcionar aos anunciantes o acesso a pessoas com o perfil do Caio para exibir suas mensagens publicitárias direcionadas. Tudo isso acontece sem que o Caio desconfie, da mesma maneira que o Google faz.

E é aí que mora o perigo. As plataformas de mídia social (YouTube, Instagram, Threads, Facebook, TikTok, Twitter) operam seguindo a lógica da exibição de anúncios herdada da mídia de massa. Só que elas conseguem fazer isso de maneira individualizada para adequar os interesses dos anunciantes às atividades e informações da audiência. Fazem isso em massa, num volume absurdo.

É importante falarmos do volume porque, ao contrário de um anúncio numa emissora de TV ou rádio — que custa muito caro —, um anúncio no Instagram, YouTube ou TikTok é bem barato. Então as empresas de tecnologia que dependem da venda desses anúncios para sobreviver precisam mostrar muitos anúncios para poder operar. Nesse sentido, elas passam a também manipular, por meio de algoritmos, o que é mostrado para usuários como o Caio. Elas fazem isso para tentar manter o Caio conectado pela maior quantidade de tempo possível.

Quanto mais tempo o Caio ficar rolando a tela do Instagram, mais anúncios a plataforma pode mostrar pro Caio. Então, para garantir que o Caio fique mais tempo rolando a tela, eu vou selecionar apenas conteúdos que sei que interessam ao Caio para que eu consiga garantir que ele fique mais tempo vendo anúncios.

Uma vez que isso esteja bem claro em nossas cabeças, é fácil entender os incentivos para que as plataformas comerciais de mídia social manipulem o conteúdo para que as pessoas fiquem cada vez mais tempo presas a elas. E é por isso que elas acabam se tornando tão más. Elas se esforçam para coletar a maior quantidade possível de dados sobre seus usuários, trabalham esses dados em mecanismos de filtragem disponibilizados aos anunciantes e se esforçam para exibir conteúdos que travam as pessoas às telas para, claro, verem cada vez mais anúncios.

O ciclo vicioso que se forma com esse processo tem feito muito mal à sociedade. A formação de bolhas e o vício em telas têm relação com isso. Não há como negar.

É por isso, retomando o assunto que inicia este texto, que um outro modelo de consumo de mídia se faz necessário. Plataformas que não tenham seu faturamento baseado na intermediação de anúncios são necessárias e importantes para romper com esse modelo. As plataformas baseadas no ActivityPub têm esse potencial porque proporcionam às pessoas um espaço de interação onde não há o incentivo para coletar dados em grandes volumes nem para direcionar conteúdos para manter as pessoas conectadas. Não há a exibição de anúncios, o que deixa o processo mais confortável. Mas essas plataformas precisam de dinheiro para funcionar, certo? E é aí que a demanda por uma mudança de mentalidade se evidencia. Quem vai financiar diretamente a operação de uma instância no Mastodon, por exemplo, são seus usuários, pagando um pouco a cada mês para que os servidores possam ser mantidos e administrados e o conteúdo possa ser moderado.

É algo novo para as pessoas, que estão acostumadas a usar serviços como o Instagram ou o YouTube sem ter que pagar por isso com dinheiro. Só que, quando a gente fica sabendo como o Instagram e o YouTube operam (você leu os parágrafos anteriores, né?), a gente percebe que o que fornecemos a essas empresas é algo muito mais valioso do que 5 ou 10 reais mensais… É por isso que plataformas livres são muito importantes e precisam ser incentivadas. Elas possibilitam uma retomada de controle por parte das pessoas. Independência e soberania digital.

Não haverá um novo “Exército do Lula”

O segundo turno da eleição presidencial brasileira de 2026 marcou história. Foi a primeira vez que um candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar virou o jogo e venceu as eleições. A mobilização que aconteceu no país durante as três semanas que separaram os domingos 04 e 25 de outubro de 2026 foi sem precedentes. O prospecto de um presidente com sobrenome Bolsonaro e extensa lista de crimes colocou o país em alerta. As pessoas ocuparam as ruas e as plataformas sociais numa movimentação que fez o presidente Lula ser eleito com uma margem confortável de votos. Uma vitória incontestável que teve como importante componente um canal do WhatsApp chamado “Exército do Lula“.

Este canal havia sido criado pelo deputado federal André Janones em abril de 2026 e, após a apuração do primeiro turno das eleições tinha poucos milhares de participantes. Ao final da campanha do segundo turno, o canal era o segundo maior do WhatsApp no Brasil, com quase onze milhões de usuários. Foi uma sacada brilhante. Canais são muito eficientes em entregar informações para grandes volumes de pessoas.

O que é um Canal no WhatsApp?
No WhatsApp, podemos ter conversas individuais, grupos, atualizações de status e canais, que funcionam como listas de distribuição. As pessoas aderem ou assinam os canais e passam a receber as mensagens de atualização enviadas por quem os administra. Não é possível responder as mensagens e nem postar conteúdo. Os usuários podem apenas interagir com as atualizações por meio de emojis e encaminhar as postagens para conversas e grupos na plataforma. Apenas os administradores postam nos canais.

Diferentemente de postagens em plataformas como o Instagram, em que as atualizações de um perfil são mostradas apenas para uma parcela dos seguidores, num canal do WhatsApp, a entrega é plena. Todo mundo que está no canal será alertado de uma nova publicação (desde que configure o aplicativo para tal). Isso proporciona um bypass na manipulação algorítmica operada no Instagram, no Twitter, no TikTok ou no YouTube, por exemplo.

O Canal do “Exército do Lula” tem mais usuários/seguidores do que os perfis do próprio Lula ou do André Janones no Instagram, por exemplo. Uso o Instagram como elemento de comparação aqui porque em 2026 esta parece ser a plataforma de uso adotada pela maior parte dos brasileiros conectados à internet.

O Instagram tem por volta de 150 milhões de usuários no Brasil. Embora o volume de brasileiros na plataforma seja gigantesco, o Instagram não é a plataforma mais eficiente para comunicação. Especialmente se o que se busca é a mobilização social em prol de uma causa coletiva (como foi o caso da movimentação pela eleição de Lula em 2026). Em média, o Instagram mostra uma postagem para algo entre 3 e 5% dos seguidores de um perfil. Em casos tidos como sucesso, a entrega varia entre 6 e 10%.

Para o caso do Exército do Lula, então, o canal no WhatsApp mostrou-se incomparavelmente mais eficiente. Tomemos o deputado André Janones, por exemplo. No começo de Outubro de 2026 seu perfil no Instagram tinha pouco mais de três milhões de seguidores. Ao final da campanha de segundo turno (25 de Outubro) ele alcançou 6,8 milhões de seguidores. Mesmo se tomarmos o número final de seguidores dele (6,8 milhões) e considerássemos que suas postagens chegassem a 10% de seus seguidores, cada atualização dele no Instagram chegaria a 680 mil pessoas.

No canal do WhatsApp, cada um dos mais de 10 milhões de usuários que resolveram aderir a este espaço recebiam as atualizações postadas ali. Para efeitos de ações, não há qualquer possibilidadse de comparação; o canal é absurdamente mais eficiente.

Só que tem um porém. Sempre tem um porém.
Instagram e WhatsApp são produtos do Facebook/Meta. Esta empresa foi flagrada ativamente interferindo no processo eleitoral brasileiro em favor de Flávio Bolsonaro. Não foram poucos os exemplos. Desde restrição de publicações de campanhas de impulsionamento até a boicote na ferramenta de IA passando pela interferência no alcance orgânico de postagens.

O Estadão detalhou os dados apresentados na ação judicial em que a campanha de Lula argumenta que o alcance médio dos Reels de Flávio Bolsonaro foi quase três vezes maior que o de Lula (apesar de Lula ter mais seguidores); e há suspeita de que a Meta permitiu anúncios políticos pagos em moeda estrangeira.

Já O Globo reportou que a campanha de Lula acionou a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral Eleitoral, alegando que a campanha de Flávio recebeu da Meta “vantagens econômicas não declaradas” (estimadas em cerca de 7,4 milhões de reais em exposição).

A Agência Brasil noticiou que especialistas da ONU expressaram preocupação com a atuação da Meta nas eleições brasileiras, mencionando relatos de que “perfis de um dos lados foram mais afetados” e que mensagens internas da empresa reconhecem que as contas de Lula foram prejudicadas.

Um outro exemplo, para ficarmos apenas em quatro: o G1 informou que a campanha de Lula acusou a Meta de descumprir decisão judicial, citando exemplos específicos: a ferramenta de IA gera imagens com “Vote 22” para Flávio, mas se recusa a gerar para Lula; e o mecanismo de tradução automática traduz comentários de “futuro presidiário” (futuro prisioneiro) como “future president” (futuro presidente).

Sendo WhatsApp e Instagram ferramentas da mesma empresa (Meta), não se pode esperar que elas seguirão funcionando da mesma forma no futuro.

Os exemplos que acabei de dar mostram que esta empresa adotou um lado para beneficiar durante a campanha eleitoral, o que por si só já é gravíssimo. Seria muita inocência acreditar que ela não repetirá este apoio no futuro e também que ela não melhorará suas lógicas intervencionistas, visto que agora foram flagradas em delito.

Nada impede também que a Meta passe a intervir no alcance de postagens em canais. Nada impede que ela – inlcusive – despriorize um canal a seu bel prazer (ou atendendo pedidos de um candidato querido). Sabemos que ela já opera dessa maneira no Instagram. Um relatório da Human Rights Watch de 51 páginas documentou 1.050 casos de censura em mais de 60 países. A entidade identificou o shadow banning (redução significativa da visibilidade sem notificação) como um dos seis padrões de censura, com pelo menos 100 ocorrências recorrentes. O relatório aponta que a aplicação da política de “Organizações e Indivíduos Perigosos” (Dangerous Organisations or Individuals) foi usada de forma excessiva para restringir discursos pró-Palestina.

Não dá para acreditar que ela não vá fazer algo semelhante (ou ainda mais sofisticado) no futuro para que a sua intervenção em algum outro processo eleitoral (ou mesmo alguma movimentação social mais relevante) seja mais eficiente.

Por isso eu coloquei no título deste texto que jamais teremos outro “Exército do Lula”.  É bem difícil que o que aconteceu no Brasil em Outubro de 2026 se repita. A Meta (ou o Google, ou o TikTok ou o Twitter…) jamais permitirá uma nova derrota em seu próprio território. Essa é a única certeza que temos neste momento.

O quê fazer, então?
A solução é tão simples quanto difícil. Não utilizar qualquer plataforma da Meta no futuro. Para todos os efeitos, também do Google, do TikTok e do Twitter ou de qualquer outra grande empresa de tecnologia.

É uma solução simples porque é óbvia e clara. É, ao mesmo tempo, difícil porque não se enxerga alternativa. As grandes empresas de tecnologia cresceram tanto e foram adotadas como parte da estrutura coletiva de comunicação do país de tal forma que parece impossível vivermos sem elas. Mas é possível, sim. E, pelo amor de tudo, a solução não é o BlueSky e nem mesmo o Koo. O BlueSky é apenas mais uma plataforma comercial algoritmicamente manipulada e ávida por viabilizar-se financeiramente por meio de anúncios publicitários, tal qual como o Instagram, o TikTok e o YouTube. A solução é a adoção de plataformas livres e que proporcionem a soberania comunicacional no contexto digital de forma efetiva.

O caminho é a liberdade e a soberania.
Plataformas sociais que operam usando o protocolo ActivityPub tem este potencial. Imagine um partido, um movimento social, marca comercial, uma Universidade, uma Prefeitura ou uma escola, cada uma com seu servidor Mastodon, por exemplo. Todos que se conectarem a estes espaços e seguirem os perfis que ali publicam serão impactados por 100% das postagens publicadas. É um ganho enorme quando comparado com os 3-5% de alcance que uma publicação tem no Instagram. É o mesmo alcance, a mesma entrega que se tem com o canal de WhatsApp. Entretanto, sem que seja controlado por uma empresa estrangeira com um histórico de abuso de dados coletados dos usuários e, como relatado acima, de intervenção em campanhas políticas/eleitorais.

O controle de cada servidor (ou instância) no Mastodon, bem como a moderação de conteúdo ficam a cargo da entidade que a criou. A estrutura é de responsabilidade de quem controla a instância, bem como o estabelecimento das regras de publicação no servidor. Certamente um ônus que vale muito à pena assumir tendo em vista os benefícios proporcionados com a liberdade na comunicação.

O Mastodon, no contexto do protocolo ActivityPub é o equivalente ao Twitter (com algumas diferenças para melhor, claro). O Pixelfed é semelhante ao que temos no Instagram. Já o Loops, se assemelha ao TikTok e o PeerTube, é o equivalente ao YouTube. Só que existem outras diferenças, além do alcance pleno (entrega de 100% das mensagens a todos os seguidores) e do controle total dos espaços de comunicação. Estes serviços conversam entre si. Um perfil no Mastodon pode ser seguido por outro no Pixelfed e vice-versa.

O contexto de plataformas que funcionam usando o protocolo ActivityPub permite esta interoperabilidade e conversa de maneira nativa, muito diferente do cenário que temos hoje nas plataformas comerciais. Nos espaços comerciais, as empresas que os controlam não tem interesse que seus usuários saiam da plataforma A e vão consumir conteúdo na (ou da) plataforma B. Isso inexiste no universo de plataformas que funcionam usando o protocolo ActivityPub (ou Fediverso).

Além disso, diferentemente dos canais de WhatsApp, nos espaços das plataformas do Fediverso, todos podem interagir, responder e dialogar com as publicações. Ou seja: é um cenário de comunicação muito melhor para todos e mais eficiente do que o que temos hoje com a prevalência de plataformas comerciais.

O melhor disso tudo é que estes espaços já existem e é relativamente fácil implementar novas instâncias. Tudo o que precisamos fazer é passarmos a usar estas soluções. Já existe um bocado de gente usando o Mastodon e outros serviços que rodam em cima do ActivityPub no Brasil. Algumas destas iniciativas podem ser encontradas aqui. Há também material muito legal para explicar melhor o que é o Fediverso aqui.

O assunto já está sendo dicutido, o que é muito bom. Agora, o que precisamos é trabalhar a migração para estes espaços e criar novos servidores / instâncias para que mais gente possa chegar. A gente sabe que é possível fazer isso. Então precisamos apenas fazer. E a gente tem um horizonte de tempo para conseguirmos fazer isso. As próximas eleições no Brasil são daqui 2 anos. Cada segundo conta.

Algumas coisas sobre a Meta ter derrubado a página do Revelando

Semana passada foi lançado o projeto Revelando. É uma derivação do Calma Urgente. De acordo com o que foi divulgado no canal do Calma Urgente, o Revelando é uma nova série de reportagens sobre histórias que marcaram o país e impactam o Brasil até hoje. O primeiro episódio foi com a Samara Felippo e abordou a história da Eugenia no Brasil, passando por os casos de esterilização forçada, e como essa ideologia está presente até hoje nos discursos presentes na internet.

O segundo episódio foi com o Fábio Porchat e tratou da relação entre Vorcaro, a Igreja Batista da Lagoinha e Flávio Bolsonaro.
Este segundo episódio deu o que falar. Em menos de 24 horas o vídeo havia sido assistido por mais de um milhão de pessoas no YouTube. O material tem circulado de forma frenética. Há uma presença também no Instagram. Poderia ser até mais, não foi porque a Meta retirou o perfil do Revelando do Instagram do ar no dia 23 de setembro, um dia depois da publicação do vídeo.

A derrubada do perfil no Instagram fez um enorme barulho e, rapidamente, a conta foi restabelecida. Muita gente comentou, claro. Inclusive o pessoal da iniciativa [CTRL+Z].

Eu vi o texto do [CTRL+Z] sobre a derrubada e fiquei pensando um monte de coisas. A primeira coisa que me veio à cabeça foi: qual o motivo de a Meta ter feito isso? Outra coisa: Por que raios a Meta derruba isso e não fez nada com os conteúdos falaciosos que o Nikolas Ferreira publicou há um tempo sobre o PIX e recentemente sobre as vacinas e a epidemia de COVID? Claro, pensei também como nos parece errado e injusto que um material tão importante, que traz reflexões embasadas em fatos, seja retirado do ar pela empresa. Esta última é a reflexão que parece que todo mundo está fazendo.

Só que eu tenho um comichão que me faz ir um pouco além. Penso que que, paralelamente, devemos refletir sobre como a gente deixou as coisas se desenrolarem até o ponto de construir a impressão de que a Meta é infraestrutura pública de comunicação? E se a gente simplesmente nem usasse mais esta plataforma?

Plataformas comerciais não são praças públicas. A gente é levado a pensar nessa direção a partir da retórica das próprias plataformas. Só que elas tem muito mais a cara de praças de alimentação de shopping do que de praças públicas. Soberania digital também se relaciona a isso. Ao invés de dependermos de infraestruturas comerciais privadas, a gente deveria pensar em migrar para estruturas diferentes de comunicação. A internet já nos fornece isso. Preguiçosamente a gente acaba escolhendo a solução de plataformas como as da Meta, o que é bastante negativo.

No contexto atual, parece impossível uma realidade onde este conteúdo não estivesse sob o domínio da Meta. Mas eu entendo que este outro contexto é possível. A gente não precisa de uma empresa que atua como entregadora de conteúdo para o mundo. Époder demais e algo que estamos vendo (este é só o exemplo mais recente) que o poder acumulado por estas organizações não é saudável para a sociedade como um todo.

É de cair o C D B

Como certa vez disse a Natalia Pasternak, “é de cair o orifício retal das nádegas”….

Hoje ouvi no episódio #8 do podcast “Segue o Fio” o Sergio Spagnuolo falar que “muita gente do PT, inclusive, né, está envolvida com o Daniel Vorcaro”. Ele disse isso aos 11 minutos e 05 segundos do episódio.

Bem, é bastante decepcionante ouvir isso da boca de um jornalista. Como eu não tenho o contato dele e não somos conectados, tentei marca-lo numa postagem do LinkedIn na esperança de ele ver isso. Acho que não vai ver, mas tudo bem.

Entendendo que, como o Sergio, mais gente deve ter essa ideia equivocada, eu vou compartilhar aqui um breve vídeo feito com áudio extraído de um episódio passado do Foro de Teresina em que o Celso Rocha de Barros explica de forma didática quem está mais envolvido com o caso do Banco Master e com o Daniel Vorcaro.

Faltando tão pouco para as eleições, é legal esclarecer isso porque tem gente que não está votando num candidato porque acha que o partido dele está envolvido no caso. Daí escolhe votar em outro candidato achando que fará boa coisa. Só que é justamente o outro candidato que pediu dinheiro diretamente pro Vorcaro e o chamou de “irmãozão”.

A conta vai chegar…

A postagem acima foi publicada no linkedin (nem toda postagem no linkedin, mas sempre uma postagem no linkedin) dia 15/09/2026.

Quem sabe essa não é a oportunidade que você e o seu negócio não precisavam para simplesmente iniciar uma jornada para longe da Meta? Que tal alternativas abertas ou que tenham políticas de privacidade e respeito aos seus dados  pessoais?

Um atendimento inicial pode ser feito no Signal ou mesmo por RCS. Basta estudar o mercado, o negócio e analisar as opções.

Marcas podem ter ambientes no Matrix para atender e conversar diretamente com consumidores, criando comunidades e interagindo de maneira mais eficiente do que em plataformas comerciais que só querem sugar dados.

Que tal estabelecer uma presença no Mastodon e chamar seus consumidores para te acompanhar por lá? No Mastodon seu alcance orgânico será sempre de 100%, sem precisar ficar entrando em trend ridícula e nem fazer stories todos os dias.

Além destas, existem várias soluções interessantes de comunicação digital que passam longe de produtos da Meta. Hoje temos uma geração inteira de profissionais de Comunicação que associam que trabalhar comunicação na Internet é fazer post para Instagram. Isso é um desperdício enorme de potencial.

Enfim, as opções existem, mas todo mundo só pensa em como pode fazer para dar mais dinheiro para plataformas comerciais algoritmicamente manipuladas.

Será que você ou o seu negócio precisam *mesmo* da Meta?

Take 02. Dia 01.

A última postagem deste blog data de 27 de agosto e reportava que o meu experimento de remover o WhatsApp do meu telefone pessoal havia durado 253 dias.

Pois é. Hoje estou recomeçando isso. Depois de 14 dias usando o WhatsApp em meu telefone pessoal, eu não consegui me reacostumar e hoje estou separando as coisas novamente.

Como eu havia me esforçado tanto para separar as coisas, quando elas se juntaram, não fazia mais sentido. Na verdade, ter o WhatsApp no meu telefone pessoal me incomodou mais do que ter que andar com dois telefones às vezes. Passados 14 dias de incômodo com aquele aplicativo em meu telefone pessoal, resolvi voltar à situação anterior.

Cá estou agora novamente com o meu telefone pessoal sem nada da Meta. Dessa forma, já consegui remover a Meta e a Microsoft de minha vida pessoal. Uso o mínimo possível do Google e da Apple. Um pouquino a cada dia. As coisas não precisam ser feitas de uma vez só. Aos poucos a gente consegue. Um esforço de cada vez. Assim a gente consegue depender menos de grandes empresas de tecnologia.

253 dias

No dia 17 de dezembro de 2025 eu troquei de celular e, naquele dia, decidi que não mais instalaria o whatsapp em meu telefone pessoal. Para muitas coisas do trabalho o WhatsApp é utilizado e eu havia decidido que manteria um numero extra apenas para o WhatsApp e para as coisas do trabalho.

Funcionou bem por 253 dias. Na verdade, segue funcionando. Entretanto, hoje eu resolvi que o embate logístico de ter que às vezes carrergar dois aparelhos, ficar transferindo coisas de um aparelho para o outro para resolver problemas e atender pendências simplesmente me cansou demais. Coloquei o WhatsApp no aparelho pessoal e estou aposentando de vez o aparelho antigo.

Eu poderia ter continuado? Claro que poderia. Não é impossível ter o WhatsApp descolado de sua vida pessoal. E é isso que pretendo seguir fazendo. O aplicativo seguirá sendo usado para questões profissionais, apenas. Quero ainda automatizar o processo de, quando fora do horário de trabalho, simplesmente desligar as notificações.

Estes produtos oferecidos por gigantes de tech não são inevitáveis. A gente escolhe o caminho com o menor esforço. São coisas distintas.

Internet e Web não são sinônimos

Uma coisa que eu dedico uns bons 20 minutos de minhas primeiras aulas da disciplina de Comunicação e Cultura Digital é a diferença entre a Web e a Internet. Faço isso porque entendo que para entender comunicação digital precisamos entender conceitos básicos. Por mais que a gente ache que já os sabe.

A prova da necessidade desse investimento de tempo na aula logo na primeira sessão foi demonstrada ontem. Veja imagem abaixo recebida em uma das várias newsletters que eu assino:

Perceba que ao final do parágrafo os jornalistas indicam que a Web e a Internet são a mesma coisa.

Isso é errado. A Internet é a rede das redes (Internet significa INTERconnected NETworks). A Internet é a estrutura. É a rede da sua casa, ligada à rede do seu provedor, que se liga às redes de diversos outros provedores e forma a rede que liga todas as outras por meio do protocolo TCP/IP (Transmission Control Protocol / Internet Protocol).

Isso não é detalhe. A minha preocupação na aula é a de justamente formar profissionais de  Comunicação que não cometam o erro acima. Esse é um erro que indica que você não sabe do que está falando. Pra mim, é um erro grave. Daqui ha pouco, alguma ferramenta geradora de lero-lero vai se apropriar deste texto da newsletter e começar a falar mais besteira para pessoas que buscam informações nestes lugares.

Então, de uma vez por todas. A Web é um pedaço da Internet. É um subconjunto. Criada pelo Tim Berners-Lee na virada dos anos 1980 para 1990. A Internet já existia há um bom tempo quando a web foi criada.

Em minha primeira aula da disciplina eu procuro deixar isso bem claro.

A Web é um subconjunto próprio da Internet, e a diferença entre Internet e Web (Internet menos Web) não é vazia – ou seja, existem serviços na Internet que não são Web.

A Web é um subconjunto próprio da Internet, e a diferença entre Internet e Web (Internet menos Web) não é vazia – ou seja, existem serviços na Internet que não são Web.

Encontrei um erro no livro do Fernando Morais

Estou lendo a segunda parte a biografia do Lula, escrita pelo Fernando Morais. O livro é muito bacana, à exemplo do primeiro. A leitura é fluida e a gente pode ter acesso a uma série de eventos e dados que passaram batido ou que ficaram lá enterrados na memória.

Por exemplo: eu não me lembrava que a Erundina havia sido ministra do Itamar. Isso me passou batido. Achei o contexto e a história em torno deste fato bastante interessantes.

Só que eu encontrei um errinho neste segundo volume que me deixou com a pulga atrás da orelha.

Estou no trecho em que é retratada a primeira Caravana da Cidadania, em que Lula percorreu boa parte do país em sua campanha para as eleições de 1994. O ano da Caravana é 1993. No trecho em questão o autor fala do esforço que a equipe tinha em preparar a Caravana com informações sobre as cidades pelas quais iriam passar. Fala do contexto anterior à internet em que as pesquisas sobre as cidades precisavam ser feitas manualmente e presencialmente em diferentes órgãos e consultando variadas fontes de informação. Daí o autor coloca uma curiosidade sobre Varginha e o incidente com a suposta aparição de ETs.

Ok, interessante ver vertentes políticas diferentes com interpretações e estratégias distintas sobre como explorar o ocorrido na cidade. Isso é informação interessante. Só que tem um problema. O ocorrido em Varginha foi em 1996. A Caravana da Cidadania aconteceu em 1993/1994. Então o tempo não casa. Há um erro ali. Eu detectei o erro porque me lembro bem dessa época. Mas… a pulga que ficou atrás de minha orelha é: e as outras coisas que eu possívelmentente não peguei? Agora eu vou terminar a minha leitura com um olhar um pouco diferente…

How I managed to stop KMail notifications after uninstalling it

I never sit still. I’m always coming up with something to keep myself busy, and I often end up complicating things. The upside is that I occasionally learn something new.

A few months ago, when I decided to switch from Mint to Debian with KDE, I also gave KMail a try. It’s an excellent email client, but it lacks an integrated calendar, so I had to use Merkuro (which isn’t quite ready yet) and later KOrganizer.

The problem was that neither KMail nor KOrganizer is available on Android, so I was using Thunderbird on my phone. That’s when I decided to use Thunderbird on my computer as well; I uninstalled KMail and moved on with Thunderbird.

However, for some reason I didn’t understand at the time, KMail kept sending me notifications about new emails even though it was no longer installed.

That’s when I learned that KMail relies on a host of other KDE services; even after the program is deleted, these services—which are shared by other packages—remain installed. One of them handles notifications.

The easiest way to stop receiving notifications from KMail, unfortunately, is to reinstall it and remove the email accounts and disable notifications in settings. There are threads in various forums going back a few years with users who have the same issue.

So, I had to reinstall KMail, remove my email account from it, and then uninstall the software again. This time, the notifications stopped, and now I’m only alerted by Thunderbird when a new message arrives.